Paisagens Transgénicas

1. Polissemia

Por excesso de polissemia, paisagem transformou-se num conceito flutuante, vago, instável, próprio para ser colonizado por uma diversidade enorme de sentidos que funcionam como metonímias – uma figura de retórica que consiste em usar uma palavra no lugar de outra, mantendo uma relação de implicação mútua entre o objecto real e o objecto representado, tomando o todo por uma das suas partes, uma coisa pela outra.

Tomada a coisa por qualquer das suas evocações –o que equivale a um exercício de expansão de imagens, representações, percepções, conteúdos, significantes, significados e também simplificações–, a ilusão do consenso (tal como a permanência da polémica) legitimam a continuidade da existência da coisa e das realidades e ficções que convoca. O preenchimento do vazio ou da porosidade da paisagem transforma-a numa espécie de buraco negro que se alimenta da proliferação de sentidos e polémicas –a verdadeira matéria da paisagem.

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Os (pseudo)conceitos de paisagem vivem na teia de relações que os exprimem. Por isso, ao questionarse o significado móvel da paisagem, questione-se também para que serve e o que transporta o discurso e a representação sobre a paisagem, quem são os interlocutores, qual é o contexto, quais os conflitos que se escondem por trás das palavras ou das imagens e que inquietações individuais ou colectivas arrastam consigo; quem é convocado no discurso (quem é excluído?) e com que razões.

As paisagens são como as nuvens de Aristófanes: podem assumir a forma que se desejar, podem-se transformar, podem ser etéreas, generosas ou ameaçadoras, podem ser, enfim, pura retórica, figurações fugidias e vagas para seduzir os ouvintes.

Paisagem transformou-se num dispositivo de inteligibilidade do real de uma extrema voracidade; é omnívoro. Alimenta-se praticamente de tudo com a vantagem de tornar visível (dar a ver ou representar enquanto estratégia de objectivação) qualquer problemática sujeita a um processo de “paisagificação” (mis en paysage)1. Os recursos usados nestas manobras de produção de sentido percorrem um imenso espectro que vai desde a “artialização2 típica do paradigma pitoresco fundador das noções de sítio ou paisagem patrimonial (e a sua reconversão em produto turístico produtor de identidade, distinção e valor), à diversidade dos discursos de “cientifização” que encontram no campo vasto e estruturado da ciência inúmeras instâncias e plataformas de convicção e de legitimação e, nas questões ambientais, um poderoso argumento político de larga aceitação social (pelo menos ao nível dos enunciados genéricos).

No entanto, o carácter necessariamente mutável da paisagem confere-lhe um conteúdo instável, frágil, vulnerável, com um elevado poder de dramatização. A tensão permanente entre a preservação/destruição; estabilidade/ameaça; prazer/descontentamento; aceitação/negação; incerteza, etc, produzem uma tensão constante que encontra na própria diversidade e contradição sociais, uma fonte permanente de consciência e racionalidade agónicas, ávidas de confronto, negociação, normatividade, imposições, penalizações... de modo a regular essa conflitualidade3.

É por esta razão que as políticas da paisagem se revelam de uma extrema utilidade para se perceber de que se fala realmente quando se fala de paisagem e de como agir na paisagem. A politização da paisagem permite re-centrar socialmente o “espaço público” como dispositivo de discussão e conflito, de implicação/vinculação no contexto de um colectivo social, de negociação e de deliberação em torno das questões, dos actores, da estrutura social dos campos em presença, dos argumentos, dos poderes e contra-poderes, dos implicados e dos excluídos, da mercantilização da paisagem, do envolvimento dos meios de comunicação, dos “lugares/territórios” da paisagem. Augustin Berque define paisagem como “médiance”, um dispositivo de cognição e de produção de sentido que funciona no registo sensorial e identitário onde a estética desempenha um papel importante nas relações entre sociedades e territórios4.

Como dispositivos narrativos, os assuntos em torno da paisagem revelam os consensos e as contradições acerca da legitimidade das modalidades de desenvolvimento e o próprio sentido do território enquanto “casa comum”. Repescando Bruno Latour5, os “matter-of-concern” –as polémicas, os assuntos, as coisas de que se fala– em torno da paisagem, revelam-se mais claros do que a ilusão dos “matter-of-fact”, exactamente por que não existem hierarquias de factos claramente delimitados e demarcados na “paisagem” enquanto coisa objectiva, mas, antes, uma lista interminável, uma sobreabundância instável de assuntos humanos, não-humanos e híbridos natureza-cultura que se materializam diferentemente através dos dispositivos que os revelam: plataformas e redes sociais; activistas e mediadores; “nós” e “eles”; hegemomias, contra-poderes e actos de resistência; tudo isto em geografias reais e virtuais que vão do micro-local ao global, da inscrição nítida em determinados territórios perfeitamente delimitados, a redes em contínua expansão rizomática.

2. Transgénicos

Paisagens Transgénicas6 surgiu como uma necessidade de ultrapassar enviesamentos, bloqueamentos e ilusões de conhecimento em torno dos conceitos vagos7 de paisagem – paradoxalmente considerados claros e classificáveis em taxionomias estáveis, tentando diminuir o ruído de fundo e a cacofonia existente, para melhor perceber o que é que de facto é mais importante no mal-estar social que se exprime no discurso e nas representações sobre a paisagem tornada assunto e bem público, e elemento de identidade e distinção face aos processos acelerados da globalização-massificação e do sentimento de perda de identidade. Deste conjunto de questões, são perceptíveis:

  • Os fantasmas do risco, da ameaça e da perda8 de bens considerados extraordinários que se exprimem por atributos excepcionais traduzidos/assimilados em paisagem e respectiva codificação de modos de olhar e avaliar (biodiversidade, recursos naturais, património construído, grandes narrativas da memória colectiva embebidas em determinados lugares, fetichização nostálgica de uma idade de ouro, etc.);
  • O abandono e o estrago que se produziu em territórios mais ou menos mitificados onde antes teriam existido mundos-mais-que-perfeitos e que agora se devolvem à realidade através de um discurso sobre ruínas, ausências e disfunções que se enredam entre as contradições da construção narrativa do éden onde nunca existiu, e a sua re-configuração em contextos considerados actuais, confortáveis e, sobretudo “sustentáveis”;
  • A amnésia e a pouca estima face às paisagens ordinárias, niveladas pela banalidade do quotidiano, despojadas de memórias, de referências e coisas particulares, privadas de encantamentos e memórias sucessivamente inscritas nos colectivos habitantes e não-habitantes. As paisagens banais e genéricas, sem passado reconhecível ou com linhagem perdida; sujeitas a sucessivas transformações onde não se percebe um sentido face a uma nova identidade positiva, mas sim, e sobretudo, uma enorme opacidade e um rol de controvérsias negativas: estrago, descaracterização, predação, simultaneidade de fenómenos não abarcáveis num todo, contradições e doses de défice de auto-estima sobre quem habita real ou imaginariamente esses lugares;
  • A construção de simulacros e ficções –ou a proliferação das paisagens artializadas no sentido de A. Roger9 – que se ajustam a (e constroem) novas geografias de paisagens e seus modos de percepção, e que abundantemente circulam nos meios de comunicação de massas, na promoção turística, nos projectos de desenvolvimento local, nos filmes e nas novelas, na produção artística..., cambiando constantemente os temas centrais e o branding da legitimação paisagística: a autenticidade, a wilderness, a tradição, o risco e a aventura, o exótico, o maravilhamento...10; em qualquer caso, a politização da paisagem através dos discursos e das práticas sociais em diversos campos de luta pelo poder simbólico. No sentido de M. Weber e P. Bourdieu11, a paisagem transformase num dispositivo de luta simbólica, onde os diferentes grupos sociais em presença tentam impor os seus interesses, demarcar domínios, distanciamentos e hierarquias sociais, através do modo como dão a ver e tentam legitimiar e impor novas crenças e visões do mundo. O facto de não existir uma instância de legitimação absoluta do conceito de paisagem –a sua total cientifização– e, ao mesmo tempo, o de a paisagem ser intensamente usada como referente identitário e mediador da regulação social, facilita a transformação da paisagem enquanto objecto político. Os conteúdos científicos e as suas diversas origens participam e informam essas conjunturas de validação, independentemente da variabilidade das suas razões e objectividades.

Deste grupo de questões (não estarão todas e faltarão as combinações possíveis entre todas), foi o“Feísmo”12 que melhor me fez ver a verdadeira questão.

O Foro Internacional do Feismo na Galiza (2006 e 2007) é uma daquelas iniciativas em que melhor se percebe o que está em causa na maioria das discussões actuais sobre ambiente, espaço, território ou paisagem. O feísmo não é mais do que uma imensa declinação de factos e ocorrências sobre um certo mal-estar galego face à crise, ao carácter periférico do território, da economia e da cultura galegas no contexto Espanhol e global, às mudanças radicais nas novas formas de produção de paisagem (ou outros assuntos transformados em “paisagem”, como a bolha imobiliária ao longo do litoral), ou à dramatização sobre a “destruição” da velha Galiza cujos agricultores jardineiros da paisagem emigraram em massa.

Quando não se percebe muito bem o que é que as palavras designam –espaço, território, ambiente a paisagem, por exemplo–, estas transformam-se, em esponjas: absorvem qualquer temática social e, apertando, também sairá de lá qualquer assunto. Ou seja, estes pseudo-conceitos transformam-se em dispositivos comunicacionais que, mais do que o conteúdo variável que possam conter, são usados como artilharia de arremesso nos processos de luta simbólica em momentos de mudança e de forte conflitualidade social.

É assim que vejo a maioria das discussões sobre o que muda nas paisagens (ainda denominadas) urbanas e rurais portuguesas. Face ao desconhecimento e à incompreensão do que está a mudar nos modos de territorialização da sociedade portuguesa, parece que a opinião corrente ficou presa entre o “Centro Histórico” (a velha e boa cidade) e a “Aldeia Típica” (o bucolismo dos campos e das suas gentes simples).

Quando tudo se mistura, como se fora um processo de hibridação entre duas espécies, diz-se que as paisagens são “rururbanas”, uma maneira muito simplificada para denominar padrões sócio territoriais reconhecíveis, de facto, por várias linhagens (e não por duas, apenas) de “urbanidade” e de“ruralidade”.

A questão é que as representações persistem muito para lá da realidade que designam no espaço-tempo e, por isso, a não superação da dicotomia cidade/campo (o território confinado, densamente edificado, com forma e limites precisos Vs. o fixismo da miragem pastoral dos grandes espaços campestres) redundou num discurso negativo assente sobre o trauma da perda dos dois. Assim, a velha imagem da cidade como modelo de urbanização, transforma-se em “subúrbio”, “urbanização difusa”, “dispersão urbana”, etc.; os campos (quase elísios) foram, por sua vez, “periurbanizados”, “industrializados”, etc., dando origem, para fazer o pleno, a uma “industrialização/urbanização rural difusa”.

Por trás desta denominação compósita, o que está de facto em causa é uma dupla metamorfose:

  • A agricultura e os agricultores (as suas paisagens também...) passaram a ter uma expressão estatística residual; as práticas e referências culturais misturam –se numa diversidade enorme de referentes locais/globais– porquê então “rurais”, sem a centralidade económica da agricultura e as especificidades culturais camponesas?;
  • A urbanização, enquanto edificação, intensificação infra-estrutural, diversidade cultural, etc., multiplica-se em padrões distintos de aglomeração e dispersão, antigos e contemporâneos, e, sobretudo, apresenta-se sem limites estáveis e definíveis; a cidade deu lugar à urbanização extensiva facilitada pela dotação infra-estrutural, espécie de sistema de dispositivos de colonização do território em profunda transformação sócio-tecnológica13.
  • Como é verdade que apenas reconhecemos imagens com memórias de outras imagens, é a simultaneidade da ocorrência de sinais de um e de outro mundo –campos, casas, fábricas, estradas, comércios...– que alimenta o estranhamento e a dificuldade em não admitir a metamorfose dupla (ou a dupla perda do campo e da cidade). Ao mesmo tempo, como não se consegue ultrapassar a dicotomia cidade/campo, tudo se transforma num processo de “degenerescência” e daí tudo ser “feio”: feio porque estragação da boa e velha cidade, ou feio, porque descaracterização dos campos, ou ambos.
  • É precisamente aqui que entra a metáfora transgénica –para quebrar este ciclo vicioso que teima em não ver para lá dos (pré)conceitos com que olhamos a realidade:
  • Transgénica porque, em vez de corpo estável na sua existência e respectiva taxionomia científica, a paisagem é obra aberta onde se misturam materiais e processos elementares (genes, DNA) que geram, organizam e codificam as estruturas e sistemas complexos de que fazem parte. A conceptualização de paisagem enquanto OGM, organismo geneticamente modificado, não se refere às associações/analogias entre organismo e paisagem, mas à possibilidade de mentalmente perceber a presença simultânea de materiais/elementos pertencentes a organismos ou corpos conceptualmente distintos (e respectivos campos disciplinares, áreas científicas, sistemas taxonómicos, etc. e suas sobreposições e cruzamentos). Assim, ao nível da ocupação de um simples lote de terreno, pode ocorrer uma horta e um pomar (agricultura, agrícola, rural...), uma casa (habitação, arquitectura, família...) com um rés-do-chão comercial ou industrial (empresa, serviços, indústria, urbano...); a que se acede através de uma estrada (infraestrutura viária, via, trânsito, fluxo, mobilidade, transportes...) que não é propriamente uma rua (cidade, espaço público...); ao lado do qual existe um rio com um bosque junto à margem (água, sistema hídrico, galeria ripícola, ecossistema, etc.); e assim sucessivamente. Esta heterogeneidade remete para a natureza compósita e instável das paisagens.
  • Transgénica porque a mistura de esperança e expectativa sobre os resultados da ciência e da biotecnologia em particular14, está a transformar o universo dos transgénicos numa mistura de sonhosutópicos e pesadelos apocalípticos. O transgénico agudiza o questionamento da natureza e da “ordem natural das coisas”. De coisa exterior à cultura e à sociedade, o “natural” é cada vez mais uma mistura de resultados produzidos pelo trabalho científico –sobre-abundantes, instáveis, em acelerado processo de inovação e de fragmentação em especialidades, ou em re-integração como na nanotecnologia ou na própria engenharia genética– e quase mitologias culturais em torno de crenças ou desejos face a medos e incompreensões: longevidade, saúde, ciborgues, riscos, eugenia, etc. O natural desliza com facilidade para o sobrenatural ou então desdobra-se em tantos temas (do vento ao vírus da SIDA) e escalas (do nano ao cosmos) que é cada vez mais difícil perceber o todo: “Natureza” é aquilo que é necessário explicar e não um elemento da explicação. Por outras palavras “Natureza” não é a causa das crenças científicas, mas o resultado”15.

Depois da “morte de Deus” e do desencantamento do mundo (Max Weber, 1904), as luzes e o racionalismo instauraram a hegemonia da ciência como produtora de sentido, motor civilizacional, instância de legitimação da ordem social e da visão do mundo. Acerca das galinhas enquanto natureza, escrevia Hegel em 1806 que “A existência racional de um frango consiste em que seja engordado e comido. Não há que guardar contemplações com a natureza; mísero sentimentalismo o que se perde em singularidades16. Curiosamente (ou não) é um moderno hiper-estruturalista e divisor do mundo entre natureza e cultura como Levi-Strauss que, comentando afinidades entre as mitologias do pensamento selvagem e as racionalidades científicas, acaba por concluir que o paradoxo da ciência é que quanto mais sabemos, mais dificuldade em processar o que sabemos e maior consciência daquilo que não sabemos, isto é, que estamos a um passo de transformar a ciência-quanto-mais-clara-mais-opaca num grande mito que preenche as inquietações de sempre: a morte, o desconhecido, ou o sentido da existência17.

Passado o estado de graça dessa Ciência luminosa e libertadora encerrada na sua torre de marfim, os organismos transgénicos constituem um exemplo muito claro da complexidade incompreensível da ciência/tecnologia e das falsas evidências acerca das crenças correntes sobre racionalidade, progresso, certeza, objectividade, etc., dentro dos colectivos ciência/tecnologia/sociedade e das convencionias categorias, oposições e relações entre “humano”, “tecnológico”, “natural”, “cultural”, etc.18. Os transgénicos pertencem a uma sócio-natureza muito diferente da natureza-natural ou da wilderness como primeiras-naturezas, como explicam autores acima citados.

  • Transgénica porque, finalmente e como se está a verificar no campo da produção da Arte Transgénica, o adjectivo permite ver e entender a paisagem de outra maneira19, interpelando, inquietando, criando e distribuindo sentidos e polémicas. Tal como a produção artística, a representação da paisagem (discurso, imagem) é um método de legibilidade e de inteligibilidade do real que, não dispensando as abordagens científicas e os seus diversos produtos, destrói velhas fronteiras disciplinares e outras tantas hegemonias e constrói conhecimento na intersecção das ciências, das artes e da esfera pública. O poder da estética aqui é o de questionar as regras da obra de arte, i.e., de procurar entender o que está oculto por trás da obra e dos olhares que ela suscita20.

Dito isto, tanto faz que a arte seja o rosto misterioso da Gioconda, como o urinol que Duchamp colocou no museu com o nome de “Fonte”, ou o coelho fluorescente, GFP Bunny de Eduardo Kak. As validações estéticas da arte e os seus julgamentos de valor podem-se perfeitamente fazer, prescindindo de saber se o que está naquela obra é socialmente irrelevante, trivial ou de suma importância. O contrário também é verdade, mas a estrita avaliação estética da arte não pode existir sem uma experiência cognitiva intensa: “(...) da mesma maneira que o valor económico, afectivo, decorativo, político, terapêutico, que algumas obras de arte possam ter, não garante o seu valor enquanto arte”, e que “a arte tem o valor que tem na medida em que, tal como a ciência, é uma forma de aumentar o nosso conhecimento do mundo. Este é um aspecto central do cognitivismo estético”.

Outra coisa é a intencionalidade do “artista” e a diferença abismal que pode existir entre isso e o modo como os produtos, artes, artefactos ou a actividade artística são recebidos individual ou colectivamente: prazer, apaziguamento, dor, alegria, devoção, divertimento, raiva ou o que for, sendo que também o grau de subjectividade será tão grande que o que pode ser para uns tortura, seja para outros beleza e “elevação” sensorial. No caso da Arte Transgénica, a intencionalidade é explícita e a arte é pela arte porque usa o seu poder de acção/produto/processo de interpelação social. Como escrevia Nietzshe a propósito do papel crítico da arte e do seu poder de sancionamento ou inversão dos códigos morais e éticos, esta é uma arte de “transvaloração de todos os valores21.

Dado peso das questões da arte e da estética em torno da paisagem, seguiremos aqui a proposta de J. Rancière: “estético não designa nem a teoria da arte em geral, nem uma teoria da arte que remeteria para os seus efeitos sobre as sensibilidades, mas um regime específico de pensamento e de identificação das artes –um modo de articulação entre as maneiras de fazer, as formas de visibilidade dessas maneiras de fazer e os modos de pensar as suas relações22. Reproduzindo a escolha para o título da obra citada, “Estética e Política: a partilha do sensível”, é exactamente disso que se trata: como é que se organiza a partilha daquilo que se torna sensível e relevante para um colectivo social.

O tratar-se de arte, ciência, política ou de qualquer outro campo de produção/acção cultural em torno da paisagem, não significa que se esteja a defender qualquer equivalência entre estes modos de falar e de construir as razões da fala. Trata-se apenas de dar a ver de forma distinta, de construir polémicas, de tentar objectivar ultrapassando a ilusão de objectivação que povoa tantos discursos sobre a paisagem. Ao usar-se o adjectivo transgénico, assume-se toda a carga de fascínio, de polémica, de sensacionalismo, de transgressão, de esperança..., que está contido nos resultados da investigação em biotecnologia e, ao mesmo tempo, invoca-se a biologia enquanto campo cultural eminentemente científico com toda a carga de rigor que decorre dos processos universais de legitimação/falsificação dos resultados da investigação biológica.

O transgénico desafia a Natureza, frequentemente entendida como instância absoluta de legitimação da razão das coisas, de carácter transcendental e autónoma em relação à cultura e, por isso de elevado poder normativo como na moral e na ética – o transgénico é contra naturam porque desafia a ordem natural das coisas. Por isso, as questões da bioética obrigam a preencher os sentidos da natureza a partir, simultaneamente, do desenvolvimento das ciências (a fábrica de conhecimento sobre a natureza e os seus conteúdos e significados) e da teia social em que se produzem e enredam os factos científicos –aquilo que Bruno Latour denomina os “híbridos natureza-cultura”–, ultrapassando assim a falsa evidência da universalidade da natureza (a natureza no singular), face à pluralidade das culturas23. No limite, e tratando-se de uma natureza sintetizada, o transgénico enfrenta as questões polémicas da “ética sintética” relacionada com “vida artificial”, e os “cientistas fazendo de deuses”24. Para lá dos organismos vivos, a biotecnologia e a biologia molecular ocupam-se de componentes, partes ou sistemas de organismos vivos, compondo novos organismos e modificando outros numa espécie de expansão de biodiversidade que não é produzida pelos processos espontâneos da “natureza” e daquilo que “é natural” (entendido aqui como aquilo que é não só aceite, como previsível e consensual).

É necessário ficcionar a paisagem para objectivar a sua realidade em permanente construção. São essas ficções, enquanto visões do mundo, que depois organizam os factos em narrativas (incluindo as ditas científico/técnicas) sem as quais os factos são apenas listas infinitas de coisas sujeitas a um sem fim de processos de escrutínio sobre a sua muita ou nula validade social –uma espécie de caos de factos.

Em todo o caso, assumindo que o real é a parte da ficção que se consegue provar que existe25, a paisagem será, como na Geografia, um instrumento de inteligibilidade do real. Tudo redunda, portanto, num processo de legitimação que nos obriga retornar à construção política da paisagem

Tal como nos transgénicos e nas discussões sobre bioética, as razões do conhecimento científico cruzam-se com razões maiores que são aquelas que alimentam o delicado ecossistema da política, dos modos de expressão e de exercício de poder dentro dos colectivos sociais. Aí, paisagem significa lugar, território de pertença ou de referência e, por isso, casa comum nunca definitivamente arrumada. Quer isto dizer que a “paisagificação” das polémicas implica uma centragem num lugar ou referência geográfica que mais do que simples arena da acção política é ela própria objecto de discussão e de deliberação. “Paisagem”, converte-se assim numa representação que se compõe de acções e de validações dos vários actores sociais –públicos ou não-públicos–, seus lugares e campos de pertença e respectivas estratégias e modos de legitimação, como explica Anne Sgard já anteriormente citada.

Georg Simmel escrevia em 1913 que para que houvesse uma consciência de paisagem, teria que haver a percepção de um “todo” ou “unidade” cuja presença se sobreporia às diversidades específicas das suas partes enquanto “coisas” dispostas lado a lado em frente ao nosso olhar:

For there to be a landscape, our consciousness has to acquire a wholeness, a unity, over and above its component elements, without being tied to their specificity or mechanistically composed of them. If I am not mistaken, we are rarely aware that a landscape is not formed out of an ensemble of all kinds of things spread out side-by-side over a piece of ground and which are viewed in their immediacy26.

G. Simmel estava assim próximo das teorias da psicologia da Gestalt. O todo é mais do que a soma das partes no sentido em que é a percepção do todo que dá sentido às partes e que as completa. O todo (como figura e configuração formadora de sentido) é a coerência resgatada do caos da realidade e do seu sem sentido; é o que dá significado às coisas que aparecem juntas e que assim se agrupam e se nos apresentam como regulares, ordenadas de forma simples, segundo padrões estáveis, por repetição ou semelhança de elementos e suas combinações... e outros critérios de legibilidade e de inteligibilidade. É assim que, segundo Simmel, perceberemos “paisagem” no lugar daquilo que podia ser um simples somatório de campos, casas, estradas, ou nuvens que passam. Contudo, esse todo é um estado de espírito –mood ou zeitgeist– um ar do tempo, uma predisposição e não uma característica objectiva inerente aos factos de que se compõe a paisagem.. Ficção, portanto, mas suficientemente forte para resolver e dar sentido, como o mesmo Simmel disse a propósito das paisagens alpinas que se sobrepunham, “à inquietude dispersiva das formas”.

O conceito de Paisagem Transgénica dirige-se exactamente a esta inquietude dispersiva das formas. Assumir a paisagem como composição transgénica equivale a elaborar uma alternativa acerca da explicação daquilo que as coisas podem ser, desafiando a ética e a estética que, explicita ou implicitamente, vivem nas representações e no imaginário da paisagem –tal como no trabalho artístico, construir um “dispositivo de representação dos possíveis (indesejáveis e desejáveis)” com tudo o que isso implica em matéria de acordo e transgressão27, mas, sobretudo de conhecimento.

Face à opacidade da paisagem como um todo –expressão que designa a dificuldade ou a impossibilidade em delinear o sistema que constitui o conceito vago de paisagem– e à impossibilidade de lhe atribuir um amplo e único sentido largamente partilhado pelo diferentes campos sociais, a metáfora transgénica permite:

  • Do ponto de vista científico, operacionalizar uma atitude de aproximação à paisagem que seja capaz de relativizar ou mesmo substituir a tal “coerência do todo”, das classificações estáveis e das referências “puras” que são atribuídas à paisagem (uma espécie de pureza genética que abunda nas codificações de paisagem), e deixar mais espaço à diversidade da composição dos elementos, à sua instabilidade e heterogeneidade, à simultaneidade de ocorrências, à interacção, ao conflito;
  • Do ponto de vista estético, encontrar espaçamentos para que a partilha do sensível sobre a paisagem se possa alargar a outras referências, valorações, modos de ver e dar a ver, formas de visibilidade, etc., que consigam fugir aos estereótipos mais comuns e que, sobretudo, permitam elaborar interrogações e confrontos acerca da alteridade e da mistura. Não se deve menosprezar a importância da estética da paisagem, quando essa é exactamente uma das formas mais correntes do seu registo no discurso comum;
  • Do ponto de vista ético e moral, as discussões acerca da “ética sintética”, da quebra da “ordem natural das coisas”, da “contra-natura”, daquilo que é “natural” também no sentido do que é tido como largamente previsível e consensual, etc., constituem uma ferramenta valiosa para despistar aquilo que verdadeiramente se pretende legitimar no olhar analítico e, sobretudo, normativo/prescritivo, sobre a paisagem. A ética do sintético permite avaliar de outro modo aquilo que é novo, a alteridade, o que está fora da norma;
  • Finalmente, a politização da paisagem, re-posiciona a proliferação e a fragmentação de sentidos sobre paisagem no seu lugar que é o debate social acerca das coisas partilhadas (assuntos comuns) e do modo como se partilham. Não existe discurso científico, estético ou ético sobre a paisagem que não passe pela identificação do seu estatuto enquanto material/contexto de deliberação através do qual um colectivo se organiza, como e em torno de quê.

Parecendo quase tautológico e como diria Bruno Latour: paisagem é aquilo de que se fala quando se fala de paisagem.

É esta a questão. Não se pode amar ou odiar aquilo que não se conhece. Pela paisagem faremos caminho com esta realidade expandida que arte e o olhar artístico permitem. Desentranhando a realidade das coisas, dos seus lugares comuns, dos sentidos práticos e da vida de todos os dias, a artialização que a fotografia de paisagem produz permite o encantamento e o sentido do sem sentido e da distracção com que demasiadas vezes passamos, mais ou menos pasmados, pelo mundo.

Não se deve chamar híbrida a esta paisagem por ser mistura de coisas que se dizem do campo (terra lavrada) e da cidade (bloco de apartamentos ou fábricas). Em biologia, nunca coisas tão opostas se poderiam hibridar (que se saiba). Será então paisagem transgénica. O estranhamento resulta só do conjunto. Cada coisa é claramente identificável: vinha nova em campo lavrado, vinha velha em latadas à volta dos campos, fábricas, blocos de apartamentos, igreja, casas, árvores e coisas ao alto, chaminés do tempo do vapor e do carvão, postes de alta-tensão, de baixa, de telecomunicações, de iluminação, brumas, colinas azuis ao longe. É a inquietude dispersiva das formas, como diria G. Simmel (enganando-se).

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